Fernando Meirelles divide espectadores
Hugo Bernardo
Da equipe Aspas

Mark Rufallo e Juliane Moore em cena de “Blindness”
Depois de ser bombardeado por críticas divergentes, Fernando Meirelles, o diretor de “Ensaio sobre a Cegueira” (“Blindness”), recebeu a aprovação de José Saramago, autor do livro homônimo. Meirelles contou ao crítico do Estadão Luiz Carlos Merten que Saramago segurou as lágrimas após ver a adaptação cinematográfica. Depois, emocionado, o cineasta brasileiro beijou a cabeça do escritor português. Saramago ainda falou que se sentia tão feliz quanto no dia em que terminou de escrever “Ensaio Sobre a Cegueira”. A cena já saiu até no Youtube.
“Blindness” deu início ao Festival de Cannes deste ano. O filme de abertura, em geral, não concorre à Palma de Ouro. Mas, a organização do evento abriu uma exceção para o trabalho de Meirelles. Isso aumentou a expectativa sobre a película, que já era grande. Afinal, o livro do escritor português possui uma legião de fãs.
Depois da exibição, os jornalistas se dividiram. O crítico do Estadão Luiz Carlos Merten, que está em Cannes, ficou “em cima do muro”. “Não sei dizer se ‘gostei’ de Blindness”, disse Merten em seu blog, “Fiquei impressionado, isso sim, com o tratamento visual que Fernando Meirelles e o fotógrafo César Charlone dão ao tema da cegueira branca que se constitui na metáfora de José Saramago em seu filme”.
Kleber Mendonça Filho, enviado do Jornal do Commercio (JC) a Cannes, foi direto. “As idéias aqui traduzidas de Saramago resultam numa obra semelhante a tantas outras no repertório do cinema fantástico”, diz Kleber, e continua, “a diferença aqui é que o apocalipse não é um efeito espetacularmente visual, mas uma deixa para reflexões internas que ganham peso na segunda metade do filme”.
Para a professora da Barros Melo Monica Fontana, mestra em Letras, a obra do escritor português é ideal para uma adaptação cinematográfica. “É um livro bastante visual, sem dúvida, e também muito dinâmico, cheio de acontecimentos e de diálogos”, explica Monica. “Além disso, tenho a curiosidade de ver a história de Saramago narrada numa outra linguagem, com outros recursos”, completa.
Transformar um livro em filme, para Monica, é trabalho complicado. “Cinema e literatura têm a narrativa como ponto comum”, disse Monica, “mas a forma como cada um vai apresentá-la é diferente. São linguagens distintas, com recursos distintos, estímulos distintos”. Ela ainda comenta: “até a forma de consumo diferente. Por exemplo, é praticamente impossível ler um romance em 2 horas, mas este é o tempo médio de duração de um filme”.
“Ensaio Sobre a Cegueira” foi escrito por Saramago em 1995. Mas esta não foi a primeira obra do vencedor do Prêmio Nobel da Literatura de 1998 a ser filmada. Em 2002, A “Jangada de Pedra”, livro de 1986, foi transposto para o cinema.
Trailer do filme

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